"O termo bullying compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder. Portanto, os atos repetidos entre iguais (estudantes) e o desequilíbrio de poder são as características essenciais, que tornam possível a intimidação da vítima. Por não existir uma palavra na língua portuguesa capaz de expressar todas as situações de bullying possíveis, o quadro, a seguir, relaciona algumas ações que podem estar presentes: colocar apelidos, ofender, zoar, gozar, encarnar, sacanear, humilhar, fazer sofrer, discriminar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, dominar, agredir, bater, chutar, empurrar, ferir, roubar, quebrar pertences."
Esta é a definição para bullying encontrada no bullying.com.br.
Não sou nenhuma especialista, mas vou arriscar algumas considerações, a partir do que tenho visto na mídia, no consultório e nas escolas. Em primeiro lugar, chamou a minha atenção a variedade de situações elencadas na conceituação acima, como possíveis ações ligadas ao bullying. Na minha opinião, essa falta de precisão favorece o tratamento inadequado que se tem dado a muitas atitudes absolutamente naturais da infância. E quando digo "absolutamente naturais", não quero dizer que não necessitem da intervenção dos educadores, sejam pais ou professores. Mais uma vez, valorizo a importância do nosso olhar. Uma coisa, é olhar para estas situações como fazendo parte de bullying (expressão americana que correu o mundo), em que, de um lado, estão os agressores, e de outro, as vítimas. Outra, é olhar para elas (situações) e ver ali, duas crianças, ou, dois lados, que precisam igualmente de orientação. Pode parecer a mesma coisa, mas não é.
É comum escutarmos que o bullying sempre existiu (sem o nome, o que na minha opinião era uma vantagem), mas que com as proporções trágicas, como mortes e suicídios, e a falta de impunidade, passou a existir a necessidade de uma discussão mais profunda. Ao pensarmos assim, estamos misturando tudo num mesmo pacote. Talvez, o que sempre existiu, continue existindo. Claro, que com as mudanças consequentes das mudanças dos tempos. E a maior incidência atual de mortes e suicídios sejam consequência de outros problemas, e não um agravamento do que já existia. "Zoar" não pode fazer parte de um fenômeno que também inclui agressão física que pode até, levar à morte. Por que tanta necessidade de dar nome a tudo? O resultado é que atitudes humanas, que claro, precisam e merecem atenção e cuidado, passam a ser vistas como gestos criminosos que exigem intervenção rápida, rigorosa e punitiva. O trabalho preventivo dá lugar a uma urgência que só agrava e confunde tudo.
Mudar o olhar significa voltar-se para as crianças e adolescentes, para as suas necessidades, as suas peculiaridades, as suas vontades e (por que não?) também para a agressividade que está presente dentro deles (e de todos nós) e que faz parte da natureza humana. Aceitar essa agressividade é o primeiro passo para torná-la menos ameaçadora. Mudar o olhar significa preocupar-se mais em conhecer o desenvolvimento infantil e menos em acompanhar, pela mídia, notícias tratadas tão superficialmente.
quarta-feira, 17 de março de 2010
domingo, 7 de março de 2010
Novo ensino fundamental
Este seria o ano para que escolas da rede pública terminassem de implementar o novo ensino fundamental de 9 anos. A lei federal, de 2005, tinha como objetivo principal garantir um ano a mais de escolarização, já que o ensino fundamental é obrigatório a todas as crianças. Estava previsto que, durante este período, as escolas se preparassem para receber a nova faixa etária, evitando que o conteúdo da antiga primeira série fosse apenas transferido para as crianças de seis anos do novo primeiro ano, sem as adaptações necessárias. Espaço físico (área de recreação, bebedouros, banheiros, carteiras, etc.) e propostas curriculares teriam que se adequar à nova faixa etária (eu pergunto de novo: não seria mais fácil investir no que já existe?). No entanto, as aulas começaram e parece que não foi isso o que aconteceu. Em muitas escolas, o primeiro ano continua exatamente como era a primeira série, com uma única diferença: estão sentadas nas carteiras, por longas cinco horas, crianças com apenas 6 anos de idade. A Secretaria de Educação de São Paulo, em reportagem da Folha de São Paulo, afirma que "à medida das necessidades e das diferentes demandas das diretorias de ensino serão encaminhados equipamentos para as escolas." Será que as crianças podem esperar por isso, considerando a burocracia que esse tipo de coisa exige, e justamente, num dos momentos mais delicados da vida escolar? Agora é torcer para não aumentar ainda mais o número de alunos que não aprendem e o que é pior, o número de encaminhamentos para os profissionais da saúde, como se o problema fosse deles (alunos). A boa notícia é que desta vez, será mais fácil para eles (profissionais) identificar onde é que está o problema.
terça-feira, 2 de março de 2010
As pulseirinhas de silicone deram o que falar
Vereadores de Navegantes (SC) aprovaram lei que proíbe o uso das pulseirinhas coloridas de silicone nas escolas municipais. Elas estariam sendo usadas pelos adolescentes para brincadeiras ligadas à sexualidade. A regra é a seguinte: o adolescente que consegue romper a pulseirinha de uma garota, tem direito a um prêmio que pode ir de um abraço a uma relação sexual, de acordo com a cor. A lei não prevê punição e nem define a quem cabe a fiscalização. Com apenas dois artigos, além da proibição do uso, ela obriga professores e diretores a se reunirem com os pais para esclarecimentos sobre a medida e orientações com relação a questões ligadas à sexualidade. O projeto, segundo o autor, vereador Marcos Paulo da Silva (PT), pretende "conscientizar sobre a conotação sexual que eles (os adereços) têm, e evitar a proliferação desse jogo. Para isso, precisamos ensinar aos pais, que conversarão com os filhos. Não queremos culpar alguém." Para o prefeito Roberto de Souza (PSDB), "com a brincadeira, crianças e adolescentes tem contato precoce com algumas experiências sexuais. Isso não é saudável. Sendo assim, sancionei a lei. Aprendi que devemos evitar (não é cortar?) o mal pela raiz."
Eu daria apenas 3 argumentos para não concordar com a aprovação da lei.
1. É desnecessária e inútil. As brincadeiras não são a causa do "contato precoce com experiências sexuais", mas manifestações. Sem pulseirinhas coloridas, os adolescentes rapidamente encontrarão outros adereços ou objetos que lhes permitam criar novos jogos.
2. Pulseirinhas tão coloridas e chamativas podem até ser um sinal (um bom sinal) de que querem conversar e não, um "mal" que precise ser cortado "pela raíz".
3. É provável que as regras do jogo não sejam levadas tão a sério pelos adolescentes e que muitos estejam usando os adereços apenas para seguir uma moda passageira. Uma lei como esta pode criar (ao invés de resolver, como pretende) um problema bem maior do que de fato existe.
Outros municípios estão pensando em aprovar leis como esta. Esse sim é um mal que precisa ser cortado pela raíz.
Eu daria apenas 3 argumentos para não concordar com a aprovação da lei.
1. É desnecessária e inútil. As brincadeiras não são a causa do "contato precoce com experiências sexuais", mas manifestações. Sem pulseirinhas coloridas, os adolescentes rapidamente encontrarão outros adereços ou objetos que lhes permitam criar novos jogos.
2. Pulseirinhas tão coloridas e chamativas podem até ser um sinal (um bom sinal) de que querem conversar e não, um "mal" que precise ser cortado "pela raíz".
3. É provável que as regras do jogo não sejam levadas tão a sério pelos adolescentes e que muitos estejam usando os adereços apenas para seguir uma moda passageira. Uma lei como esta pode criar (ao invés de resolver, como pretende) um problema bem maior do que de fato existe.
Outros municípios estão pensando em aprovar leis como esta. Esse sim é um mal que precisa ser cortado pela raíz.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
A maternidade e a democracia
Sempre que escuto discussões a respeito dos problemas do nosso país, e em especial, das relações políticas perversas e corruptas, eu tenho a mesma convicção: somente as crianças seriam capazes de construir, lá na frente, uma sociedade mais justa, se recebessem, hoje, uma educação que tivesse como prioridades uma formação moral sólida e um desenvolvimento emocional saudável. Essa convicção é, por um lado, consequência da minha formação profissional. Por outro, resultado da educação que recebi e da convivência com algumas pessoas que fui encontrando pelo caminho.
No ano passado, fui aluna de um curso que tinha como proposta, a leitura dirigida de alguns dos muitos capítulos da obra de Winnicott. Tive a sorte de usar todos os livros de um tio muito querido, que passou boa parte da vida estudando com profundidade toda a sua obra. Todos, repletos de anotações. É claro que o curso ficou bem mais gostoso do que teria sido se os tivesse comprado. Lia Winnicott e tio Adolfo ao mesmo tempo. Das pessoas que conheci, era uma das que mais valorizava e respeitava a relação de uma mãe com o seu bebê. Talvez, esteja aí a essência do pensamento de Winnicott.
Tudo isso, pra dizer um pouco do que aprendi com os dois (e com a maternidade, é claro) sobre "a contribuição da mãe para a sociedade" (nome de um dos capítulos da sua obra).
Winnicott, psicanalista inglês que estudou com profundidade a vida do bebê, ao tentar atribuir um significado psicológico ao termo democracia, sugere que uma sociedade verdadeiramente democrática é constituída por uma maioria de pessoas consideradas maduras do ponto de vista emocional. Para pensar numa sociedade democrática, portanto, seria preciso pensar nos seus membros individualmente. Maturidade da sociedade sugere maturidade de uma proporção ideal de membros saudáveis.
Para o autor, um indivíduo maduro é aquele que apresenta um grau satisfatório de desenvolvimento emocional compatível com sua idade cronológica e o meio em que vive. Esse desenvolvimento dependeria de um ambiente satisfatório, capaz de se adaptar às necessidades do bebê, fase em que o ser humano está num estado de dependência absoluta.
A mãe, segundo o psicanalista, seria a pessoa mais apta a assumir essa adaptação, em função de um estado de sensibilidade aumentada que ela desenvolve no final da gravidez e nas primeiras semanas de vida do bebê, e que Winnicott chamou de preocupação materna primária. Essa “doença normal” permite a ela identificar-se com seu filho e assim, reconhecer e atender suas verdadeiras necessidades. Ele considera possível que outras pessoas desenvolvam essa capacidade de identificação com o bebê. A diferença é que com a mãe isso pode se dar mais naturalmente. Se essa adaptação acontece de forma "suficientemente boa", o bebê consegue se desenvolver harmonicamente sem a necessidade de reagir a invasões do ambiente para as quais não está preparado. O desenvolvimento em direção à maturidade pode então prosseguir da maneira mais harmônica possível e a dependência absoluta vai dando lugar a uma dependência relativa, em que o bebê começa a perceber a realidade externa. Nesta transição, é importante que tenha início uma desadaptação gradual da mãe ao bebê, em que pequenas falhas suportáveis favoreçam este percurso.
Segundo Winnicott, o ser humano tem uma tendência natural a um padrão de vida democrático que para ser atendido, dependeria de uma provisão ambiental adequada. A sociedade, por sua vez, dependeria de uma proporção significativa de membros saudáveis, para se tornar um sistema verdadeiramente democrático.
Em qualquer sociedade ou comunidade, essa possibilidade pode ser comprometida em função da presença de indivíduos anti-sociais ou que têm uma tendência imatura a se identificar com a autoridade, para suprir uma insegurança interna. Winnicott considera que, em ambos os casos, embora neste último, de uma maneira oculta, a tendência anti-social está presente. E em nenhum deles, pode-se falar em pessoas inteiras capazes de construir uma sociedade democrática. Há ainda, os indivíduos que não se definiram. Para o autor, somente uma proporção suficientemente grande de seres saudáveis seria capaz de influenciar o maior número dos ”indeterminados”, incorporando-os a eles.
Para Winnicott, a tendência democrática não deve ser imposta a uma sociedade, mas deve nascer em ambientes que ele chamou de “bons lares comuns”. Os verdadeiros criadores da tendência democrática seriam então o homem e a mulher comuns, capazes de construir um lar saudável comum. A mãe, por meio da sua devoção no início da vida de seus filhos e o pai, oferecendo proteção para que ela consiga ser suficientemente boa em sua tarefa. A maneira como todas as outras pessoas podem contribuir é não interferindo, ou interferindo da forma menos invasiva possível na dinâmica natural deste arranjo.
No ano passado, fui aluna de um curso que tinha como proposta, a leitura dirigida de alguns dos muitos capítulos da obra de Winnicott. Tive a sorte de usar todos os livros de um tio muito querido, que passou boa parte da vida estudando com profundidade toda a sua obra. Todos, repletos de anotações. É claro que o curso ficou bem mais gostoso do que teria sido se os tivesse comprado. Lia Winnicott e tio Adolfo ao mesmo tempo. Das pessoas que conheci, era uma das que mais valorizava e respeitava a relação de uma mãe com o seu bebê. Talvez, esteja aí a essência do pensamento de Winnicott.
Tudo isso, pra dizer um pouco do que aprendi com os dois (e com a maternidade, é claro) sobre "a contribuição da mãe para a sociedade" (nome de um dos capítulos da sua obra).
Winnicott, psicanalista inglês que estudou com profundidade a vida do bebê, ao tentar atribuir um significado psicológico ao termo democracia, sugere que uma sociedade verdadeiramente democrática é constituída por uma maioria de pessoas consideradas maduras do ponto de vista emocional. Para pensar numa sociedade democrática, portanto, seria preciso pensar nos seus membros individualmente. Maturidade da sociedade sugere maturidade de uma proporção ideal de membros saudáveis.
Para o autor, um indivíduo maduro é aquele que apresenta um grau satisfatório de desenvolvimento emocional compatível com sua idade cronológica e o meio em que vive. Esse desenvolvimento dependeria de um ambiente satisfatório, capaz de se adaptar às necessidades do bebê, fase em que o ser humano está num estado de dependência absoluta.
A mãe, segundo o psicanalista, seria a pessoa mais apta a assumir essa adaptação, em função de um estado de sensibilidade aumentada que ela desenvolve no final da gravidez e nas primeiras semanas de vida do bebê, e que Winnicott chamou de preocupação materna primária. Essa “doença normal” permite a ela identificar-se com seu filho e assim, reconhecer e atender suas verdadeiras necessidades. Ele considera possível que outras pessoas desenvolvam essa capacidade de identificação com o bebê. A diferença é que com a mãe isso pode se dar mais naturalmente. Se essa adaptação acontece de forma "suficientemente boa", o bebê consegue se desenvolver harmonicamente sem a necessidade de reagir a invasões do ambiente para as quais não está preparado. O desenvolvimento em direção à maturidade pode então prosseguir da maneira mais harmônica possível e a dependência absoluta vai dando lugar a uma dependência relativa, em que o bebê começa a perceber a realidade externa. Nesta transição, é importante que tenha início uma desadaptação gradual da mãe ao bebê, em que pequenas falhas suportáveis favoreçam este percurso.
Segundo Winnicott, o ser humano tem uma tendência natural a um padrão de vida democrático que para ser atendido, dependeria de uma provisão ambiental adequada. A sociedade, por sua vez, dependeria de uma proporção significativa de membros saudáveis, para se tornar um sistema verdadeiramente democrático.
Em qualquer sociedade ou comunidade, essa possibilidade pode ser comprometida em função da presença de indivíduos anti-sociais ou que têm uma tendência imatura a se identificar com a autoridade, para suprir uma insegurança interna. Winnicott considera que, em ambos os casos, embora neste último, de uma maneira oculta, a tendência anti-social está presente. E em nenhum deles, pode-se falar em pessoas inteiras capazes de construir uma sociedade democrática. Há ainda, os indivíduos que não se definiram. Para o autor, somente uma proporção suficientemente grande de seres saudáveis seria capaz de influenciar o maior número dos ”indeterminados”, incorporando-os a eles.
Para Winnicott, a tendência democrática não deve ser imposta a uma sociedade, mas deve nascer em ambientes que ele chamou de “bons lares comuns”. Os verdadeiros criadores da tendência democrática seriam então o homem e a mulher comuns, capazes de construir um lar saudável comum. A mãe, por meio da sua devoção no início da vida de seus filhos e o pai, oferecendo proteção para que ela consiga ser suficientemente boa em sua tarefa. A maneira como todas as outras pessoas podem contribuir é não interferindo, ou interferindo da forma menos invasiva possível na dinâmica natural deste arranjo.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Ensino Fundamental de 9 anos
Os antigos primário e ginásio, com duração de 8 anos, são hoje o ensino fundamental que, com a aprovação da lei 11.274 de fevereiro de 2006, é ampliado para 9 anos. Na prática, o último ano da educação infantil passa a ser o primeiro do ensino fundamental e, portanto, obrigatório. Primeira série é hoje segundo ano. Nós, adultos, precisamos de um tempo para pensar em ano e não mais em série. Para as crianças, é ainda mais complicado. Sei de um menino que passou um tempo pensando que estava na mesma série porque saiu de uma escola (particular) que já tinha adotado a nomenclatura nova e foi para uma pública, que deixou para fazê-lo em 2010 (prazo para as escolas se adequarem). Terminou o segundo ano na particular e começou a segunda série na pública (que na outra já se chamava terceiro ano).
O objetivo da ampliação é aumentar o tempo de escolaridade das crianças que entram direto no fundamental sem passar pela educação infantil. A idéia é boa. No entanto, fico na dúvida se as mudanças curriculares que, de acordo com o MEC se fazem necessárias, não farão com que as crianças sejam expostas precocemente ao ensino formal. Uma das respostas que encontrei na seção de dúvidas frequentes da Secretaria de Educação Básica foi a seguinte:
"21. O conteúdo do primeiro ano do Ensino Fundamental de nove anos é o conteúdo trabalhado no último ano da pré-escola de seis anos?
Não. A Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, não tem como objetivo preparar crianças para o Ensino Fundamental; tem objetivos próprios que devem ser alcançados na perspectiva do desenvolvimento infantil respeitando, cuidando e educando crianças no tempo singular da primeira infância. No caso do primeiro ano do Ensino Fundamental a criança de seis anos, assim como as demais de sete a dez anos de
idade, precisam de uma proposta curricular que atenda suas características, potencialidades e necessidades específicas dessa infância."
Depois de ler, fiquei com uma dúvida ainda maior:
De acordo com a resposta, a Educação Infantil (o que inclui o seu último ano, hoje primeiro ano do fundamental) tinha como objetivo atender as particularidades daquela idade (6 anos). Objetivo que deve ser o mesmo para o primeiro ano do Fundamental de 9anos. O que é então que precisa ser mudado nas propostas curriculares, se as necessidades das crianças permanecem as mesmas, apesar das mudanças? Há inclusive um Referencial Nacional para a Educação Infantil, elaborado para auxiliar os educadores no trabalho com crianças até 6 anos. Há pouco tempo, perguntei à coordenadora de uma escola particular, no interior de São Paulo, se houve alguma mudança curricular com a introdução do fundamental de 9 anos. Ela respondeu que não, que era apenas uma questão de nomenclatura mesmo. Até porque, na rede privada, as crianças não dependem desta reestruturação para serem matriculadas aos 6 anos. Muito antes disso já estão frequentando as escolas. Não seria então mais conveniente investir na Educação Infantil que já existe, ampliando-a para que mais crianças da rede pública pudessem se beneficiar dela?
O objetivo da ampliação é aumentar o tempo de escolaridade das crianças que entram direto no fundamental sem passar pela educação infantil. A idéia é boa. No entanto, fico na dúvida se as mudanças curriculares que, de acordo com o MEC se fazem necessárias, não farão com que as crianças sejam expostas precocemente ao ensino formal. Uma das respostas que encontrei na seção de dúvidas frequentes da Secretaria de Educação Básica foi a seguinte:
"21. O conteúdo do primeiro ano do Ensino Fundamental de nove anos é o conteúdo trabalhado no último ano da pré-escola de seis anos?
Não. A Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, não tem como objetivo preparar crianças para o Ensino Fundamental; tem objetivos próprios que devem ser alcançados na perspectiva do desenvolvimento infantil respeitando, cuidando e educando crianças no tempo singular da primeira infância. No caso do primeiro ano do Ensino Fundamental a criança de seis anos, assim como as demais de sete a dez anos de
idade, precisam de uma proposta curricular que atenda suas características, potencialidades e necessidades específicas dessa infância."
Depois de ler, fiquei com uma dúvida ainda maior:
De acordo com a resposta, a Educação Infantil (o que inclui o seu último ano, hoje primeiro ano do fundamental) tinha como objetivo atender as particularidades daquela idade (6 anos). Objetivo que deve ser o mesmo para o primeiro ano do Fundamental de 9anos. O que é então que precisa ser mudado nas propostas curriculares, se as necessidades das crianças permanecem as mesmas, apesar das mudanças? Há inclusive um Referencial Nacional para a Educação Infantil, elaborado para auxiliar os educadores no trabalho com crianças até 6 anos. Há pouco tempo, perguntei à coordenadora de uma escola particular, no interior de São Paulo, se houve alguma mudança curricular com a introdução do fundamental de 9 anos. Ela respondeu que não, que era apenas uma questão de nomenclatura mesmo. Até porque, na rede privada, as crianças não dependem desta reestruturação para serem matriculadas aos 6 anos. Muito antes disso já estão frequentando as escolas. Não seria então mais conveniente investir na Educação Infantil que já existe, ampliando-a para que mais crianças da rede pública pudessem se beneficiar dela?
sábado, 16 de janeiro de 2010
Zilda Arns em defesa da verdadeira cidadania
Lendo a coluna do Frei Beto desta semana na Folha de São Paulo, em que fala da Dra. Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, um "detalhe" chamou a minha atenção, mais do que qualquer outra coisa. Ele diz que, no lançamento do programa Fome Zero, em 2003, ela foi contra a exigência de comprovação de gastos em alimentos, como garantia de que os beneficiários não destinassem para outras coisas o dinheiro recebido. Para ela, a exigência traria muito mais problemas do que soluções e gastos com fiscalização seriam melhor aplicados na educação, por exemplo. Esta tomada de posição, apoiada por Frei Beto, com quem trabalhou no programa, é na minha opinião um raro gesto de respeito ao ser humano. É uma valiosa demonstração de confiança que oferece às pessoas a oportunidade de serem honestas por escolha, e não por imposição. A auto estima de muitos brasileiros seria reforçada e muito provavelmente, escolheriam a honestidade em resposta. A nossa sociedade não tem a maturidade necessária para acatar uma decisão assim. Parece que ainda precisamos da vigilância e da punição. Uma posição como esta, tomada por Zilda Arns, mostra a visão libertária que ela tinha por trás de toda a ajuda concreta que a Pastoral oferece. Alguns dias depois de mudarmos para esta casa, ficamos sabendo que as empregadas domésticas eram revistadas quando passavam pela portaria na hora da saída. Aquilo nos incomodou muito e pedimos que a nossa empregada não fosse mais revistada, em nenhum momento. Era uma trabalhadora como qualquer um de nós e merecia o mesmo respeito. Acho que assim, com pequenas atitudes, no nosso pequeno espaço privado, podemos caminhar em direção a uma sociedade mais igualitária e, portanto, menos vigilante.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Ainda sobre Dislexia
Há um comentário na postagem do dia 9/11 de uma pessoa que fala sobre um vídeo disponível no site da TV Câmara. Neste vídeo, o vereador Elizeu Gabriel recebe a Professora Maria Aparecida Moyses e a Presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo para discutirem a dislexia. Ela diz que, no final do vídeo, as entrevistadas apresentam um livro sobre Dislexia e que, a divulgação e a venda dele seriam o "real interesse da campanha" (palavras dela). Pelo que eu entendi (e isto está dito com todas as palavras na própria entrevista), não se trata de um livro, mas sim de um material com dois DVDs que contém as duas partes do debate que ocorreu na Câmara Municipal de São Paulo, em setembro. Inclusive, estão, integralmente, disponíveis no site do Conselho para download. Qualquer um pode ter acesso a eles, sem nenhum custo. Talvez, eu tenha assistido ao vídeo errado. Se há outro, gostaria de saber. Abaixo, está um link para quem quer assistir às entrevistas realizadas na TV Câmara, divididas em quatro partes. Assim, cada um pode tirar suas próprias conclusões.
http://tvcamarasp.com.br/eliseu_gabriel.htm
http://tvcamarasp.com.br/eliseu_gabriel.htm
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Uma observação
A discussão decorrente da postagem sobre dislexia (9/11) ainda não se esgotou. Depois de alguns dias sem comentários, há novas contribuições lá hoje.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Dias mágicos
Ontem, na sala de espera de um consultório médico, eu me sentei ao lado de uma senhora de uns 80 anos mais ou menos, que estava com seu marido e um filho que os acompanhava. Em pouco menos de meia hora, conversamos sobre chuvas, enchentes, violência, religião, filhos, doenças, etc. Ela não sabia muito bem em que estação do ano estávamos, se fazia frio ou calor. Eu disse que estávamos no verão e ela então se lembrou que era quase Natal, "não tem mais Natal como tinha antes né minha filha?". Começou a se lembrar das ceias que a mãe fazia, das roscas para o café da manhã do dia 25 e das broas de fubá com erva-doce, "nem em padaria tem mais minha filha, nunca mais comi daquelas broinhas, nunca mais". Perguntou se eu já tinha comido. Eu respondi que sim e disse a ela que, em Minas, ainda é possível encontrar coisas assim. "Ô minha filha, você bem que podia trazer umas broinhas pra mim né? Eu deixo meu telefone e daí quando você for na minha casa levar, eu te dou o dinheiro." O filho dela chegou perto pra ver o que é que estava se passando eu eu disse a ele que prometi a sua mãe, trazer de Minas, broinhas de fubá com erva-doce. Acho que essa meia hora fez bem a mim, mais do que a ela. Concordo que o Natal não é mais a mesma coisa. Antes, éramos crianças e dia de Natal era mágico. Lembro-me da montagem da árvore na casa da vovó, dos passeios com meus pais e meu irmão no centro da cidade do interior pra ver Papai Noel e as ruas enfeitadas com aquelas bolas gigantes. Não tinha shopping ainda. Todos, ricos e pobres, iam aos mesmos lugares pra fazer suas compras ou simplesmente, pra passear. Os presentes ficavam embrulhados e só podiam ser abertos na noite de Natal. Que bom se ansiedade fosse aquilo. Lembro-me do Manequinho, o primeiro boneco com pipi e tudo, que fazia xixi de verdade. Da Amélia, que vinha com tábua de passar roupa e ferro. Nem sei se ainda existe uma boneca assim. Ou com esse nome. Tinha também a Tippy com bicicleta e um cavalo de rodinhas. Lembro-me do meu avô bravo quando um de nós chegava atrasado. Das histórias de mocidade que ele contava milhões de vezes e que seria tão bom se pudéssemos escutar de novo. Na hora da ceia, ele dizia que talvez aquela fosse a última. No ano seguinte, estava ele lá, contando histórias e se despedindo mais uma vez. Antes da ceia, chorava quando escutava minha avó tocando o piano de calda que foi presente dele muitos anos antes. Lembro-me dos envelope$ gorduchos que ele preparava e esperava pra distribuir (um pra cada um) com a mesma ansiedade com que esperávamos para abrí-los. Da torta de bombas pretas e brancas que meus tios traziam da Brunella de São Paulo. Dos fios de ovos. Dos vizinhos que atravessavam pra dar Feliz Natal, dos parentes que não deixavam de dar uma passadinha. Do meu irmão de Papai Noel. Apesar da resistência de alguns (alguns poucos) que defendem um Natal menos comercial, Natal e Papai Noel são inseparáveis. Essa figura mágica está por todos os lados e, especialmente, na fantasia das crianças. Na minha casa, todos os anos, meus pais faziam um enfeite no jardim. Quase todos que passavam na porta, davam uma paradinha pra olhar. Talvez, o que chamasse tanto a atenção, era justamente a simplicidade. Não tinha Papai Noel subindo pelo telhado, meia, sino, nada disso. Apenas um Menino Jesus, pequeno, deitado numa manjedoura e bem pouco iluminado. Só isso. Singelo assim. Com essa imagem, sem nenhuma palavra, meus pais conseguiram nos transmitir algo mais essencial. Mas fizeram isso, sem tirar de nós a magia do Papai Noel, a graça dos presentes, os sabores das comidas e das bebidas. Eu desejo a todos um Natal com essa combinação. E que nossos filhos tenham, lá na frente, boas razões pra sentir saudades do Natal que passavam na infância.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Um comentário
Eu não pensei que pudesse causar reações tão desproporcionais com uma postagem, como aconteceu com a última. Em primeiro lugar, pela falta de relevância deste blog. Recebo apenas as visitas fiéis de todos os dias: mãe, marido, filho e alguns poucos amigos. Em segundo, pela certeza de que não havia nada de ofensivo ou desrespeitoso no meu texto, que pudesse provocar tais reações. Eu apenas falava sobre parte de uma palestra proferida por uma professora da Unicamp. É claro que ao divulgá-la aqui, de certa forma, tomo uma posição. No mundo da ciência, tomar posição é direito de todos nós. Da mesma forma que é dever, respeitar aqueles que defendem uma idéia diferente da nossa. Quase todos os comentários deixados neste "post" (a grande maioria de pais e mães de crianças com diagnóstico de dislexia) foram agressivos, desrespeitosos e ofensivos. E o mais curioso é que, as duas posições, opostas no que se refere ao conteúdo das idéias, estavam exatamente de um mesmo lado, no que se refere ao objetivo maior: a busca da melhor maneira de atender às reais necessidades de crianças que apresentam problemas no desempenho escolar. No entanto, ele (o objetivo) ficou perdido no meio de tantos ataques. Uma pena.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Dislexia existe?
O que já foi cegueira verbal congênita, lesão cerebral mínima, dislexia específica de evolução, dislexia de desenvolvimento, entre outros nomes, é hoje a tão falada e tão pouco conhecida dislexia. Na Câmara Municipal de São Paulo, há um projeto de lei do vereador Juscelino Gadelha (PSDB), feito em parceria com a ABD (Associação Brasileira de Dislexia) e já aprovado em primeira instância, que propõe um programa para diagnosticar alunos disléxicos em toda a rede de ensino, e encaminhá-los para tratamento. Especialistas de Instituições como o Conselho Regional de Psicologia, a USP e a Unicamp são contrários à aprovação do projeto por acreditarem que a dislexia, como doença neurológica de quem tem dificuldades para ler e escrever, nunca foi devidamente comprovada. Segundo eles, um projeto assim contribui apenas para a estigmatização de crianças, desconsiderando as questões sociais. No dia 21 de setembro deste ano, houve um seminário na Câmara, para se discutir o tema antes da segunda votação. Uma das palestrantes convidadas, a Doutora Maria Aparecida Afonso Moyses, professora titular em Pediatria Social da Unicamp, fez uma brilhante explanação sobre as razões da não aprovação do projeto pelas Instituições citadas. Ela traz inicialmente a definição da doença mais aceita pelos autores e entidades que defendem a existência da dislexia e à partir daí, vai questionando a falta de embasamento científico, tanto para o reconhecimento da dislexia como distúrbio neurológico, como para a forma como é feito o diagnóstico. Segundo esta definição oficial, a dislexia seria um distúrbio neurológico, que comprometeria apenas a escrita e a leitura. Para confirmação, utiliza-se instrumentos de escrita e leitura. Ou seja, usa-se linguagem escrita para diagnóstico da dislexia que tem como único comprometimento justamente a linguagem escrita. Do ponto de vista médico e científico, isso é totalmente contraditório. Uma avaliação assim só vai confirmar a existência da própria dificuldade e não, se há ou não distúrbio neurológico. Durante a palestra, a professora Maria Aparecida questiona a falta de rigor científico em alguns exames. Um exemplo é a existência de simetria de neurônios no plano frontal para comprovação do diagnóstico de dislexia. A falha no rigor é mostrada num estudo (curiosamente do mesmo autor que defende esse diagnóstico) que mostra que 16% da população "normal" também tem a tal simetria. Um outro exemplo é a presença de ectopia neuronal (quando um neurônio que deveria estar numa região, vai para outra), em algumas áreas do cérebro. Aqui, a falta de rigor está na ausência de estudos da ectopia neuronal na população dita normal. Para a professora, é complicado dizer que uma doença neurológica se caracteriza por questões que também estão presentes em qualquer pessoa que tenha dificuldade para ler e escrever, pelos mais diferentes motivos. Ela dá como exemplo exames de neuroimagem que precisam ativar o cérebro na função que está sendo avaliada. No caso da dislexia, essa ativação se dá, novamente, por meio de instrumentos de escrita e leitura. Uma pessoa que não sabe ler, em consequência de uma alfabetização mal sucedida por exemplo, pode ter essa função diminuída como uma reação saudável a testes que tenham como objetivo avaliar seu desempenho em leitura. São duas as principais questões que ela nos deixa: uma, se as dificuldades em leitura e escrita não seriam reflexo da diversidade, não só de seres humanos, como também das condições a que estão expostos e não, consequência de distúrbios neurológicos. A outra, se os exames de neuroimagem não detectariam a consequência no cérebro de não saber ler, e não, a sua causa.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
De casinha pode, de espada não?
Um menino de 4 anos presenciou há pouco tempo um assalto à mão armada, na casa de seus avós. A avó conta que, alguns dias depois, ele pegou um guarda-chuva e começou a brincar de atirar, como se fosse uma metralhadora e que o pai, preocupado, tentou desviar sua atenção para outras coisas. Da mesma forma que a criança brinca de casinha ou de escolinha para experimentar diferentes papéis e assim, entender melhor como é que as coisas se dão, precisa também das brincadeiras de polícia e ladrão ou de guerra para assimilar experiências traumáticas e violentas. Não há necessidade, portanto, de que os pais, em nome da paz, proíbam este tipo de brincadeira. Uma espada de brinquedo, certamente, não fará com que a criança se torne violenta, até porque, ela consegue muito bem separar realidade e fantasia. É claro que, depois de uma situação traumática como a que viveu este menino, não precisamos dar aos filhos um revólver de brinquedo na esperança de que elaborem o trauma. Eles sabem como transformar objetos em brinquedos que atendam suas necessidades. O fazer de conta que um guarda-chuva é uma metralhadora é um sinal importante de que a criança, por meio da fantasia, está tentando dar conta da realidade. Só o que podemos fazer, é ficar por perto e atentos aos limites que eles próprios acabam nos pedindo.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Problemas no desempenho x distúrbios de aprendizagem
Na maior parte da vida escolar de uma criança, é o seu desempenho em provas, trabalhos ou tarefas que é avaliado e não, a sua capacidade para aprender. Para ter bons resultados em atividades assim, é preciso que o aluno tenha, anteriormente, apreendido determinados conteúdos. Se o desempenho nestas avaliações não é o esperado, atribui-se a ele o baixo rendimento. Desconsidera-se uma série de fatores externos que interferem na aprendizagem como, por exemplo, aspectos da própria instituição de ensino: currículos, programas, formas de avaliação, métodos de ensino, atitudes dos professores, condutas disciplinares. Muitas crianças acabam sendo encaminhadas aos serviços especializados em distúrbios de aprendizagem com queixas como desatenção, hiperatividade, desinteresse e indisciplina. Interessante que comportamentos e atitudes como estes podem ser demonstrações de insatisfação com a maneira como, ainda hoje, muitas escolas tentam impor conteúdos a serem assimilados e o que é pior, associar disciplina à passividade. Questionadas com relação a sua capacidade de aprendizado, estas crianças acabam acreditando na existência de distúrbios que as impedem de aprender. Muitas vezes, durante atendimento feito por profissionais especializados, são surpreendidas com resultados acima da média em avaliações que não exigem nenhum conhecimento prévio. Surpreendidos também são aqueles que fizeram o encaminhamento, acreditando que o problema era mesmo do aluno. Não é que os problemas orgânicos não existam, mas em muitos casos, os comportamentos considerados inadequados precisam ser melhor contextualizados, para que as crianças não carreguem sozinhas toda a responsabilidade pelo fracasso escolar.
domingo, 18 de outubro de 2009
Pensamento mágico
Estávamos eu e o Gabriel na janela, olhando o temporal que se armava. Ventava muito e as nuvens se movimentavam rapidamente. Ele disse:
- Mamãe, olha! O céu tá indo lá no parquinho!!!!!
lindo...lindo...lindo
- Mamãe, olha! O céu tá indo lá no parquinho!!!!!
lindo...lindo...lindo
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Dia 15 de outubro
No final de 2000, deixamos São Paulo para viver no interior. O Pedro, nosso filho mais velho, tinha acabado de fazer 4 anos. No seu último dia de aula na capital, recebi da professora de artes, que também era uma das donas da escola Miguilim, um dos conselhos mais valiosos da minha vida: que eu escolhesse muito bem a nova escola porque, caso contrário, ele teria problemas. O Pedro era daquelas crianças que a gente pode chamar de coloridas. Era impossível ser indiferente à presença dele. Estava sempre adiante, lá na frente. Agitado, apressado, mandão com os amigos, tinha que ganhar sempre. Terminava tudo antes dos outros. De comer, de brincar, de fazer as tarefas. Era sempre o primeiro a chegar, o primeiro a falar, o primeiro a responder. Persistente, não desistia jamais. E, por sorte, era carismático. Dava um trabalho a mais aos professores que tinham sempre que encontrar estratégias pra não deixá-lo entediado. Um pouco por minha experiência, mas acho que muito mais por sorte, fizemos a escolha certa. A escola Nosso Cantinho era pequena e ficava numa chácara na mesma rua da nossa casa nova. Lá, ele teve três professoras mais do que especiais: a Gê, a Bel e a Tati. Três exemplos de delicadeza, competência e, acima de tudo, sensibilidade. Sensibilidade pra ver qualidades, onde muitos vêem problemas. Pedro continua colorido e muito feliz. E, com certeza, elas são em grande parte responsáveis. Eu não tenho a menor dúvida disso!
Gê, Isabel e Tati, parabéns a vocês pelo dia de hoje. E obrigada. Vocês moram pra sempre nos nossos corações.
Gê, Isabel e Tati, parabéns a vocês pelo dia de hoje. E obrigada. Vocês moram pra sempre nos nossos corações.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
12 de Outubro
Do livro "Nos labirintos da Moral", de Mario Sergio Cortella e Yves de La Taille.
“É interessante também que o filme (E.T.) trata fortemente de um grande valor, que é a amizade, quase que retomando a virtude da amizade entre os gregos do mundo clássico. Tanto é assim que a cena mais emocionante do filme (que é aquilo que cada um de nós busca sempre) é o encontro dos dedos – que se acendem...Quando o menino e o E.T. encostam seus dedos, surge uma luz, um brilho, que ilumina o coração. E, nesse instante, eles concordam. Em latim, “concordar” é colocar o coração junto; Cum cor é quando você concorda. E o que se vê hoje com freqüência, em uma sociedade como a nossa, é a discordância – são corações que se afastam, e não corações que se aproximam.”
Que a gente aprenda sempre com as crianças como é que se faz pra "colocar o coração junto"...
“É interessante também que o filme (E.T.) trata fortemente de um grande valor, que é a amizade, quase que retomando a virtude da amizade entre os gregos do mundo clássico. Tanto é assim que a cena mais emocionante do filme (que é aquilo que cada um de nós busca sempre) é o encontro dos dedos – que se acendem...Quando o menino e o E.T. encostam seus dedos, surge uma luz, um brilho, que ilumina o coração. E, nesse instante, eles concordam. Em latim, “concordar” é colocar o coração junto; Cum cor é quando você concorda. E o que se vê hoje com freqüência, em uma sociedade como a nossa, é a discordância – são corações que se afastam, e não corações que se aproximam.”
Que a gente aprenda sempre com as crianças como é que se faz pra "colocar o coração junto"...
sábado, 10 de outubro de 2009
Inclusão
O superdotado é alguém que tem uma capacidade bem acima da média em uma área (ou em mais de uma) e, se tem oportunidades, permanece boa parte do tempo envolvido com atividades voltadas à área de interesse. O diagnóstico deve ser feito com cuidado, já que muitas crianças são estimuladas exageradamente e acabam tendo comportamentos que se confundem com a superdotação. As habilidades das crianças superdotadas se mantém ao longo do tempo, o que pode não acontecer com aquelas estimuladas precocemente. Há também diferenças de critério para diagnóstico: QI; aprendizagem espontânea da leitura; alta habilidade em áreas específicas: capacidade intelectual, desempenho escolar, artes, habilidades esportivas e até mesmo capacidade de liderança. Na minha opinião, muitos diagnósticos são feitos precoce e equivocadamente. O olhar do educador precisa ser treinado para considerar em cada criança, suas peculiaridades e necessidades, sem que haja necessariamente um diagnóstico. Toda criança, em algum momento da vida, precisa de um olhar mais atento. Por isso, eu prefiro pensar mais em peculiaridades e, muitas vezes, em circunstâncias, e menos em diagnósticos. No caso da superdotação, acho que cada caso deve ser avaliado individualmente. Uma adequação e uma flexibilização do currículo podem ser suficiente para algumas crianças. Outras, podem precisar de uma intervenção mais especializada, mais pontual. Acho que no Brasil, não se faz inclusão de superdotados, da mesma forma que se faz, ou se pretende fazer, com as deficiências. Talvez porque estas tenham mais apelo emocional. É como se o superdotado fosse um privilegiado, sem a necessidade de uma maior atenção. Mas de qualquer maneira, acho que, na nossa sociedade, uma reflexão sobre a maneira de se fazer diagnóstico é mais urgente do que discutir a inclusão.Vejo casos em que, ao menor sinal de que uma criança apresenta desvios da norma, já se pensa em enquadrá-la em uma patologia qualquer. O que precisamos é aceitar melhor as diferenças, para que a inclusão fique reservada apenas aos casos muito particulares. O nosso olhar é que precisa ser mais inclusivo.
PS. Essa reflexão foi provocada pela Alynie, uma estudante do último ano de Pedagogia, que me pediu pra responder algumas questões para seu trabalho de conclusão de curso, sobre a inclusão de superdotados.
PS. Essa reflexão foi provocada pela Alynie, uma estudante do último ano de Pedagogia, que me pediu pra responder algumas questões para seu trabalho de conclusão de curso, sobre a inclusão de superdotados.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Ensinar menos pra educar mais
Em uma das sessões de avaliação, uma criança de primeira série (a escola pública desta cidade ainda não adotou a nova nomenclatura), chega ao consultório e pede para fazermos tabuada porque está "com muita vontade de fazer tabuada". Eu digo que sim e pergunto:
- O que é tabuada?
- É assim, você faz um risco assim (vertical), e vai fazendo riscos assim (horizontais), coloca uns números aqui, aqui você coloca outros números e vai fazendo umas continhas de vezes. Posso fazer na lousa pra você?
- Pode. Mas me diz uma coisa, você sabe o que é "vezes"?
- Sei, é um xizinho.
- Então olha só. Você está vendo esta caixinha (mostrei a ela uma caixa com 4 divisões)? Eu vou colocar 3 fichas em cada uma dessas divisões. Você sabe me dizer quantas fichas vão ficar aí dentro da caixa?
- Sei.
Pensou um pouco e disse:
- Sete.
Esse diálogo ilustra bem a forma como as crianças estão aprendendo matemática nas escolas. Eu pergunto: pra que saber que 4x3=12 (tabuada), se não entendem que 4x3 significa quatro vezes o número 3 ou; quatro vezes a quantidade 3 ou; que o número 3 aparece quatro vezes ou; que é diferente falar 4x3 e 3x4, embora tenham resultados iguais. Pra que saber que 4x3=12, se não conseguem ainda saber quando é que precisam de uma conta de multiplicação para resolver um problema? Se essa criança joga varetas, por exemplo, e tem que, ao final de cada partida, contar seus pontos, pode aprender adição e multiplicação de forma muito mais significativa e natural. Ou melhor, pode pensar nessas operações antes mesmo de saber que se chamam adição e multiplicação. Se ela consegue pegar 5 varetas verdes e cada uma vale 2, precisa pensar em quantas vezes elas aparecem para saber a quantos pontos correspondem. Pode perceber com mais facilidade que pensar em 5x2 (cinco vezes o ponto 2) faz mais sentido do que em 2x5. Isso sim significa operar sobre quantidades e pensar numericamente.
- O que é tabuada?
- É assim, você faz um risco assim (vertical), e vai fazendo riscos assim (horizontais), coloca uns números aqui, aqui você coloca outros números e vai fazendo umas continhas de vezes. Posso fazer na lousa pra você?
- Pode. Mas me diz uma coisa, você sabe o que é "vezes"?
- Sei, é um xizinho.
- Então olha só. Você está vendo esta caixinha (mostrei a ela uma caixa com 4 divisões)? Eu vou colocar 3 fichas em cada uma dessas divisões. Você sabe me dizer quantas fichas vão ficar aí dentro da caixa?
- Sei.
Pensou um pouco e disse:
- Sete.
Esse diálogo ilustra bem a forma como as crianças estão aprendendo matemática nas escolas. Eu pergunto: pra que saber que 4x3=12 (tabuada), se não entendem que 4x3 significa quatro vezes o número 3 ou; quatro vezes a quantidade 3 ou; que o número 3 aparece quatro vezes ou; que é diferente falar 4x3 e 3x4, embora tenham resultados iguais. Pra que saber que 4x3=12, se não conseguem ainda saber quando é que precisam de uma conta de multiplicação para resolver um problema? Se essa criança joga varetas, por exemplo, e tem que, ao final de cada partida, contar seus pontos, pode aprender adição e multiplicação de forma muito mais significativa e natural. Ou melhor, pode pensar nessas operações antes mesmo de saber que se chamam adição e multiplicação. Se ela consegue pegar 5 varetas verdes e cada uma vale 2, precisa pensar em quantas vezes elas aparecem para saber a quantos pontos correspondem. Pode perceber com mais facilidade que pensar em 5x2 (cinco vezes o ponto 2) faz mais sentido do que em 2x5. Isso sim significa operar sobre quantidades e pensar numericamente.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Filhos
Estávamos eu e o Gabriel (2 anos e 5 meses) no carro, esperando a vovó que tinha entrado no mercadinho do bairro. Ele, solto no banco de trás com os vidros abertos, puxava assunto com todas as pessoas que passavam. Eu, toda orgulhosa no banco da frente, admirava suas gracinhas. De repente, para um carro ao nosso lado, o motorista desce e, enquanto tranca a porta, olha sorrindo para o Gabriel na janelinha que retribui assim: "Oi, cara de bunda!". Bom, eu respirei fundo e tentei não dar valor nenhum ao que ele disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo (e pra ele era mesmo). Por alguns instantes, eu até consegui, mas a vontade de rir era tanta, que claro, ele percebeu. Voltou pra janela e continuou: "Oi, cara de bunda!" "Oi, cara de bunda!". Pra todos que iam passando. Eu tentava atraí-lo de todas as maneiras possíveis. "Olha Gabriel que legal isso!"; "Gabriel, vamos colocar a música da barata?"; "Cadê a vovó? Será que ela já tá vindo?". Mas nada era mais interessante do que falar, "Oi, cara de bunda!". A vovó chegou e foi a salvação. Fomos embora e no caminho, a brincadeira continuava. Não só no caminho, como no resto do dia. Aquilo estava realmente muito divertido pra ele. Pra nós também, mas não era muito conveniente que ele soubesse disso. Mesmo sabendo.
À noite eu fui contar pro papai:
"Você não sabe o que o Gabriel aprontou comigo hoje."
"Já sei. Cara de bunda."
"Como você sabe?"
"Você não sabe o que ele fez foi comigo"
E contou:
Estavam ele e o Gabriel na represa comendo amora, quando passou uma moça caminhando. Claro, ele fez uma pausa na história pra dizer que a moça na verdade era mais velha, meio feinha (eles sempre dizem que elas são meio feinhas). Sem parar de caminhar, ela olhou pra eles e disse, "Que jóia!", no sentido de coisa rica. Não sei se jóia, a criança, ou jóia, a cena de pai e filho juntos, que de fato, é linda. O Gabriel, sem nenhuma dúvida, olhou pra ela e disse, "Oi, cara de bunda!". Bom, por sorte, a mulher não tinha parado de caminhar e o que fez, foi olhar pra cara de...paisagem do papai, dar um sorrisinho constrangido e continuar andando. O Gabriel continuou comendo suas amoras como antes. No caminho de volta, era "oi, cara de bunda" pra lá, "oi, cara de bunda" pra cá e o papai então resolveu trocar uma idéia com ele, tentando explicar o que podia ser cara de bunda: uma bunda na cara, uma cara com uma bunda. Era tudo que ele precisava pra achar aquilo tudo ainda mais engraçado.
Depois fui contar para o nosso filho mais velho (13 anos) e orientá-lo a não dar muita bola quando fizesse isso na frente dele. É claro que achou o máximo e é bem provável que dê um jeitinho de ver o irmão fazendo isso na rua.
E assim, vamos apresentando a vida em sociedade aos nossos filhos. Uma pena que para entrar nela, tenham que deixar tanta espontaneidade e pureza pra traz. Aos poucos, vão entendendo que pode ser ofensa o que, pra eles, era apenas uma brincadeira inocente. É o mundo "civilizado".
À noite eu fui contar pro papai:
"Você não sabe o que o Gabriel aprontou comigo hoje."
"Já sei. Cara de bunda."
"Como você sabe?"
"Você não sabe o que ele fez foi comigo"
E contou:
Estavam ele e o Gabriel na represa comendo amora, quando passou uma moça caminhando. Claro, ele fez uma pausa na história pra dizer que a moça na verdade era mais velha, meio feinha (eles sempre dizem que elas são meio feinhas). Sem parar de caminhar, ela olhou pra eles e disse, "Que jóia!", no sentido de coisa rica. Não sei se jóia, a criança, ou jóia, a cena de pai e filho juntos, que de fato, é linda. O Gabriel, sem nenhuma dúvida, olhou pra ela e disse, "Oi, cara de bunda!". Bom, por sorte, a mulher não tinha parado de caminhar e o que fez, foi olhar pra cara de...paisagem do papai, dar um sorrisinho constrangido e continuar andando. O Gabriel continuou comendo suas amoras como antes. No caminho de volta, era "oi, cara de bunda" pra lá, "oi, cara de bunda" pra cá e o papai então resolveu trocar uma idéia com ele, tentando explicar o que podia ser cara de bunda: uma bunda na cara, uma cara com uma bunda. Era tudo que ele precisava pra achar aquilo tudo ainda mais engraçado.
Depois fui contar para o nosso filho mais velho (13 anos) e orientá-lo a não dar muita bola quando fizesse isso na frente dele. É claro que achou o máximo e é bem provável que dê um jeitinho de ver o irmão fazendo isso na rua.
E assim, vamos apresentando a vida em sociedade aos nossos filhos. Uma pena que para entrar nela, tenham que deixar tanta espontaneidade e pureza pra traz. Aos poucos, vão entendendo que pode ser ofensa o que, pra eles, era apenas uma brincadeira inocente. É o mundo "civilizado".
Mães
Eu conheço uma que hoje deve estar com o coração apertado.
Janusz Korczak, pediatra e educador polonês, em um de seus livros, diz assim a elas:
"É durante as noites sem sono que nasce o seu melhor e espantoso aliado, o anjo da guarda de seu filho: a intuição do coração materno"
Janusz Korczak, pediatra e educador polonês, em um de seus livros, diz assim a elas:
"É durante as noites sem sono que nasce o seu melhor e espantoso aliado, o anjo da guarda de seu filho: a intuição do coração materno"
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